não sei ao certo se foi a nostalgia de uma paris que conheci e me apaixonei quando li sartre, ernest hemingway e ouvi edit piaf ou da infância pura, sempre injusta – com uns e com outros. pode ter sido também aquele protótipo de robô dos anos 20 (?), o autômato de méliès. o fato é que o filme “a invenção de hugo cabret” é fantástico! os cenários, enquadramentos, movimentos de câmera, figurinos, montagem. e a simplicidade da história, cheia de metáforas. lindo filme sr. Scorsesse. Merci!
bien, bien!
começar de novo, outras coisas, de outros jeitos.
meninos da fundação casa rio piracicaba, vou sentir muita falta de vcs!
kit/fundação – março 2010 - jan 2012
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na discussão entre autonomia x ativismo não fica clara a linha limítrofe da cooptação. sim, é preciso viver – e nos embananamos continuamente para explicar o tipo de atividade que nos impomos para dar conta do pão-nosso-de-cada-dia: dos editais ao incentivo fiscal através de verba pública por empresas perniciosas até trabalhos legalmente remunerados mas não menos obscenos, a polêmica se instaura.
fato é que não existe ativismo político patrocinado – com autonomia.
e por enquanto estamos um pouco longe de viver numa sociedade onde a moeda de troca não seja o dinheiro…
ou seja, pro ativismo político tem que haver gente.
e pra haver gente, é preciso comida, cobertor, carinho, diversão…
sem falar de amor.
então.
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As barracas estão aglomeradas bem debaixo do viaduto e além do espaço ocupado do lado de dentro, agumas pessoas se ajeitaram entre umas e outras tendas também do lado de fora – estratégia inteligente que permite integrar os “sem-barraca” ao acampamento. Aliás, essa é uma das características mais ilustrativas desse espaço: a presença indispensável dos invisíveis. (Invisíveis é como Átila e outros integrantes do Movimento Nacional da População de Rua costumam se referir às pessoas que vivem em calçadas, praças ou albergues públicos. Invisíveis para o Estado, que até 2007 não inseria essa população no Recenseamento Geral do Brasil). Fato é que ali a troca é intensa. A organização está dividida em comissões e cada grupo decide – por consenso – como resolver problemas básicos de infra-estrutura: falta de banheiro público, adequação da cozinha, alimentação, limpeza, comunicação, atividades culturais e segurança.
A maioria dos transeuntes, curiosos, passam disfarçando e espiam com os cantos dos olhos, apressados. Outros, mais espontâneos, deixam-se ficar por minutos, observando. Acredito ter visto o esboço de um sorriso no rosto de uma senhora que parou para olhar. A verdade é que os brasileiros, assim como as pessoas que se indignaram no resto do mundo, estão cansados e qualquer movimento que indique que nós podemos mudar alguma coisa é visto com esperança.
À Primavera Árabe e ao Inverno Americano, junta-se o Verão Brasileiro. São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e outras cidades ao redor do país levantam suas vozes pacificamete e dizem: Basta! Indignem-se! Ë o primeiro passo. Os próximos devem ser estabelecidos a partir da proposta fixada em um dos cartazes pregados no muro do viaduto: Democracia Direta, já!
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cena do filme “Ilusões ópticas”
Li em artigo da revista Carta Capital, crítica do jornalista Matheus Pichonelli, sobre o filme do chileno Cristián Jiménez, “Ilusões Óticas”. Para discorrer sobre o filme, o autor inicia o texto falando sobre eufemismos e de como essa figura de linguagem é utilizada para “maquiar” certas colocações verbais. Em um determinado momento, ele diz que “o eufemismo é uma espécie de fundo garantidor da espécie (…): ‘Não é você, sou eu’; ‘Ficamos juntos, mas não quero compromisso’; ‘Precisamos conhecer outras pessoas’;'Seu filho é muito simpático!’”. E continua refletindo que, se essas mesmas expressões fossem jogadas no Google Tradutor de Eufemismos (quando ele for criado), a verdade teria potencial explosivo: “É você, sou eu e são todas as outras pessoas”; “Ficamos juntos, até eu conseguir algo melhor”; “Já conheci e já estamos saindo juntos”; “Seu filho tem cara de joelho”.
vou assistir depois eu conto.
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logo ali na frente, depois que você passa pela construção daqueles condomínios de rico, tem o santuário dos pajés. então você continua e vai encontrar uma ocupação. ali é um núcleo. tem muita gente morando naqueles barracos e reciclagem não é lixo. então você anda mais um pouco e vai encontrar outras pessoas com suas carroças de peito. e se você continuar andando vai ver mais barracos e mais pessoas de risadas largas buscando água pra esquentar no fogo de lenha. há os que tem menos sorrisos. como aquela moça de vinte e poucos anos e 5 filhos. e o homem das duas hérnias que não consegue atendimento médico porque seus documentos estão enterrados debaixo do barraco que a máquina esmagou – o barraco, ele fez outro, o documento não. bonito mesmo de ver foram as mulheres. com os filhos a tiracolo, a comida em cima do fogão, separando garrafas, latinhas, papel…
no meio do cerrado.
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a língua começa a tremer, bate no céu da boca e volta. não dá pra fazer ela parar. tem também uma espuma branca que sai, que nem em filme. é de verdade. você fica esquisito… com sede, sem saliva. eu chamei o “tio”, não, ele não é meu tio de verdade, mas eu moro com ele e a gente divide a boca, ele também tava locão mas chamou a ambulância. puseram uma chupeta ao contrário na minha boca que é pra não enrolar a língua. foi três vezes. da terceira vez a médica disse que se eu tivesse mais uma daquela coisa, eu podia morrer ou ficar com sequela. mas a cocaína chama, né? você começa as sete da manhã e vai até o dia seguinte. não pára antes da língua bater no céu da boca e tremer. essa hora é ruim, mas no começo, no começo é bom.
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que não tem mãe nem telefone, só o orelhão que a vizinha atende pra avisar a tia que o menino tá lá, de novo. de novo? é, de novo, tá preso! segunda-feira é aniversário dele. “18 anos senhora!” aperta forte minha mão e pede um chocolate de presente, “não se preocupe, eu como escondido no banheiro”.
eu tb sorrio.
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às vezes eles apareciam estranhos. eu também. há uma verdade que se solta… o ser humano está tão acostumado a obedecer que se esquece de decidir
e pede – para não ter que mandar; segue – pra não ter que pensar. eu também me perco no meio disso tudo… sempre penso que vai aparecer alguma coisa… pra empurrar.
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eles dizem que é preciso persistir. acordar é persistir? não, é preciso também levantar da cama, colocar um sorriso na cara, dizer bom dia e trabalhar enquanto o sol sobe chamando a pipa que não vai subir hoje pelas tuas mãos calejadas, nem voar fugindo das suas pernas fracas. é preciso parar na hora certa da comida mesmo sem fome e descansar os minutos preciosos antes de voltar a calejar um pouco mais as mãos. ainda é preciso um pouco mais de força e continuar com esse sorriso frio pregado na boca até voltar pra casa e tomar banho e comer e dormir.
é preciso persistir.
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