As barracas estão aglomeradas bem debaixo do viaduto e além do espaço ocupado do lado de dentro, agumas pessoas se ajeitaram entre umas e outras tendas também do lado de fora – estratégia inteligente que permite integrar os “sem-barraca” ao acampamento. Aliás, essa é uma das características mais ilustrativas desse espaço: a presença indispensável dos invisíveis. (Invisíveis é como Átila e outros integrantes do Movimento Nacional da População de Rua costumam se referir às pessoas que vivem em calçadas, praças ou albergues públicos. Invisíveis para o Estado, que até 2007 não inseria essa população no Recenseamento Geral do Brasil). Fato é que ali a troca é intensa. A organização está dividida em comissões e cada grupo decide – por consenso – como resolver problemas básicos de infra-estrutura: falta de banheiro público, adequação da cozinha, alimentação, limpeza, comunicação, atividades culturais e segurança.
A maioria dos transeuntes, curiosos, passam disfarçando e espiam com os cantos dos olhos, apressados. Outros, mais espontâneos, deixam-se ficar por minutos, observando. Acredito ter visto o esboço de um sorriso no rosto de uma senhora que parou para olhar. A verdade é que os brasileiros, assim como as pessoas que se indignaram no resto do mundo, estão cansados e qualquer movimento que indique que nós podemos mudar alguma coisa é visto com esperança.
À Primavera Árabe e ao Inverno Americano, junta-se o Verão Brasileiro. São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e outras cidades ao redor do país levantam suas vozes pacificamete e dizem: Basta! Indignem-se! Ë o primeiro passo. Os próximos devem ser estabelecidos a partir da proposta fixada em um dos cartazes pregados no muro do viaduto: Democracia Direta, já!

